domingo, 15 de maio de 2011

UM CONTINHO SUJO

SOB AS BÊNÇÃOS DE DEUS
– Bença, mãe...
Os filhos vinham em fila, cumprir o rito sagrado de todas as noites. Doze, sete e cinco anos. Cada um de um pai diferente, perdido no mapa e na memória de Zilda. Porque isso não tinha a menor utilidade e importância. Importante era poder beijar a cabeça de cada um, desejando bons sonhos e uma vida feliz no futuro. Isso é que era importante para Zilda, sentia, enquanto, na rua vazia, esperava o último transporte a caminho da cidade.
Ali, sozinha no ponto de ônibus, Zilda se desfazia, transitoriamente e aos poucos, do papel de mãe. Só pensava em uma coisa: dar. Os brincos balouçantes, o batom vermelho e a saia curta confirmavam. E daria, sim, a Zilda. Feito louca, feito animal, num balé bestial de corpos estranhos, desejantes e vorazes.
De manhã, exausta, Zilda voltava para casa no primeiro ônibus. O céu ainda escuro e uma sensação que não era nem de alegria e nem de tristeza, um sentimento trágico. A existência, pura e simples, era o que Zilda sentia, sem floreios de breves esperanças, sem mesquinharias de culpa ou auto-comiseração.
Mas isso não era rotina para Zilda. Embora regular. Às vezes ficava coisa de três meses sem aparecer no Lux Dance. Ia assim, quando tinha vontade. Ou, raramente, porque ficava apertada demais e as faxinas não cobriam os gastos. Ia mesmo era por vontade. E vontade, para Zilda, era aquela coisa enervante, peito pra explodir pela boca, pé que não pára quieto, mão que não tem lugar. Mente que só pensa numa mesma e sempre coisa: um pau. Uma pica grossa e dura para idolatrar. Ficava dois ou três dias pensando, pensando. Varrendo o quintal, esfregando a farda dos meninos, no pé do fogão, sempre o mesmo pensamento. Então ia até o orelhão e ligava para o Zé.
– Hoje eu vou. Avisa pras meninas.
Nem precisava mais fazer isso porque já rodava por lá há mais de dois anos. Mas sempre avisava que ia para fazer ponto, atrás de cliente. Uma free-lancer. Só pra inteirar o aluguel do mês ou o remédio pro verme do menino, mentia. Avisava porque quando chegou lá, na primeira noite, mesmo já conhecendo o Zé, a Verinha fez cara feia e quis criar confusão. A Verinha era a Loira Marombeira: não valia a pena encarar.
E não queria briga: queria amar. Beber, fumar, flertar, dançar e foder. Apaixonadíssima, diria palavras doces. Furiosa, enxovalharia o outro de xingamentos. O cheiro e a língua do outro derrubavam Zilda num abismo de desmesura. Então, entre a ternura e o desespero, Zilda alcançava o coração do mundo e gozava.
De volta para casa, chegava a tempo de dizer para cada uma das três cabeças sonolentas, no ritual matinal:
– Deus te abençoe, meu filho.

2 comentários:

  1. eita! antecipando o livro, heim, bichinha?!!

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  2. Já quero Zilda! Adorei! Principalmente a parte de "idolatrar um pau"...

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