segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

RIMAS CHINFRAS

Minha saudade, impossível.
Como sol: cega.
E na pele, o suor
Escorre o indizível.

Um verso pra não dizer
O mundo em que vou me espalhar.
Mergulho, eu também, no mar
E afundo até não mais ser.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

HAIKAI PARA DEZEMBRO N. 3

Sou toda ventre
Prenhe
Para nascer de mim.

CRONIQUETA METIDA A BESTA

LEMBRANÇA DE UM PASSEIO
Levou a filha de cinco anos consigo. Lá, sol, mar e aquela explosão que é uma praia urbana num dia de domingo.
- Seu clitóris é imenso – ele diria logo depois para a dona do bar, os dois atracados no minúsculo e fétido banheiro como são muitos deles nas praias e nos dias de domingo de sol. Enquanto isso, a menina chupava o dindim de morango, sozinha em meio aos bêbados, à espera do pai que saíra para mijar, três caipirinhas e duas cantadas ordinárias depois.
Chegaram, escolheram uma das mesas e sentaram. Uma mulher com grandes peitos moles veio atendê-los. O pai olhou de esguelha para a menina, tentando adivinhar se ela desconfiava de algo.
(É, filha, a estranheza sempre espreita, mais cedo ou mais tarde...)
- Ó tua caipirinha, tá uma diliça – anunciou a mulher, com voz a se pretender sensual.
Passou o ambulante, a menina só olhou para o pai e ele adivinhou, chamando o homem.
- Tem de quê?
Ela preferia o de uva, acabou escolhendo o de morango. Achava o vermelho mais bonito, parecia mais saboroso, mas um dia ela perceberia que todas as cores têm seu valor.
E por que é que todas as histórias têm que ter um elemento de sacanagem? pergunta a menina anos depois, olhando um pai sentado na calçada da esquina com um bebê no colo, enquanto aguarda o ônibus que a leve para uma das praias da cidade que ferve em mais um domingo de sol.

domingo, 4 de dezembro de 2011

UM POEMA DE JOTA MOMBAÇA

INEXÁGONO

Nada me reside
Há em mim falta de tudo
Mas sou habitado pelo trânsito.

Geometria incalculável me desenho:
Inexágono,
Estilhaço sanguinolento caindo como chuva.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

PERSONAS POTIGUARES: FIA


FIA

Era estrangulado o sorriso dela. Chegava-se e esgarçava a boca naquele jeito fia de ser, em busca de um trocado ou de atenção. Em uns, repúdio, em outros, graça. Outros também: indiferença.
Pulseiras de cigana. Cicatrizes pelo corpo.
- Fia, no que tu te fias?
Perguntavam os poetas do Beco, em noites alucinadas.
E enquanto seguiam, versos trôpegos noite adentro, o olhar perdido de Fia acompanhava a sombra dos gatos em noites perdidas da tal futurista cidade.

HAIKAI DOIS PARA DEZEMBRO

Dezembro, sim
Eu lembro:
tempo de esquecer.

UM HAIKAI PARA DEZEMBRO

Finda o ano
Outra vez
(Des)engano.